sexta-feira, 4 de junho de 2010

Simplicidade

Maria Guimarães Sampaio, escritora tardia e fotógrafa, muito ligada à família Veloso, morreu quarta-feira, aos 62 anos, de câncer de mama. Ao fazer mudanças na página que estava editada sobre o assunto, conheci alguns detalhes da vida de Maria, cujas fotos estão em capas de discos de Caetano e Bethânia, assim como o seus livros - Estrela de Ana Brasila, Rosália Roseiral e Continhos para cão dormir I e II – e blog ( http://continhosparacaodormir.blogspot.com/ ), que originou os dois últimos livretos.

Hoje, a rádio Metrópole repetiu uma entrevista que ela e Paloma Amado deram aos apresentadores do programa "Roda a baiana", onde Maria, contadora de casos de Santo Amaro, relata uma história que me fez morrer de rir. Reproduzo-o:

Uma moça trabalhava numa casa de família em Santo Amaro. Todas as noites, ela sumia por algumas horas. Os dias se passaram e a patroa resolver perguntar o que ela fazia e para onde ela ia. A resposta foi simples e direta:

"Não tem nada de mais, não. Vou à praça, chupo um picolé, fodo e volto".

E a vida seguiu em frente.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Promoções e cupons para leitores dos anos 30

Pesquisa feita por Maurício Villela, chefe do arquivo de A TARDE, mostra que o jornal em 1934 já fazia promoções e sorteios para turbinar suas vendas. E que a modalidade "à imitação do que praticam os jornaes da Europa e da América" não surgiu com os populares no Brasil. O jornal também não tinha vergonha de anunciar a promoção na primeira página. Surpreende ver que o modelo da época se aproxima ao que é feito hoje, inclusive com a proposta de fazer os leitores juntarem cupons para fidelizá-los. A diferença é que o jornal comprava um terreno e mandava os engenheiros da firma Manso, Cabra & Cia, que funcionava no mesmo prédio da sede de A TARDE, contruir a residência. O prêmio ofertado em 1934 (e pelo menos até 1937) era uma casa própria. O texto de divulgação é saboroso. Transcrevo um trecho:
"A TARDE" fará, desde logo edificar num dos sítios mais pittorescos da cidade no salubre bairro de Brotas, à villa Rio Branco, que offerecerá alem dos encntos da natureza, o conforto de possuir o bonde electrico à porta". Fantástico. Um belo passeio no tempo.

sábado, 17 de abril de 2010

Camisas 10

Leia abaixo a crítica que fiz para o livro "Os 11 maiores camisas 10 do futebol brasileiro", a pedido da editora do caderno 2 de A TARDE, Patrícia Moreira.

A Editora Contexto aproveita a proximidade da Copa do Mundo para lançar o livro “Os 11 maiores camisas do futebol brasileiro”, do jornalista e apresentador da Sportv Marcelo Barreto. É a sequência da série iniciada no ano passado com “Os 11 maiores técnicos...”, de Maurício Noriega, também da emissora de canal a cabo, que causou muita polêmica. É aí que reside o principal objetivo do livro – e dos que virão nos próximos meses, escalando seleções de laterais, centroavantes, goleiros, volantes: se vender pela discussão que gera qualquer lista restrita.

Nos meus tempos de menino, no campo improvisado do Larguinho, no centro velho do Rio, comparações sempre causaram debates acalorados – e, às vezes brigas -, mesmo quando os “craques”em voga eram Fernando Banana e Mauro Gordo.

O que Barreto faz, na realidade, é uma pesquisa que transforma os seus jogadores preferidos em verbetes, centrados nas trajetórias profissionais, exaustivamente reveladas nos jornais e nos 30 livros que ele inclui na bibliografia. O trabalho iniciado com explicações sobre os critérios para definir o que é um camisa 10 também serve como justificativa para deixar de fora da relação jogadores que fortaleceram a mítica em torno do número.

Como complemento, há entrevistas de ex-atletas e técnicos que conviveram com os homenageados. Aliás, o que poderia algo genial se transforma em elogios fáceis, poucas revelações e conversas apressadas, como a que é travada com Leonardo, ex-lateral do Flamengo e atual técnico do Milan, sobre seu parceiro Raí.

Ao escalar Zizinho, Pelé, Ademir da Guia, Rivellino, Dirceu Lopes, Zico, Raí, Neto, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká nas 256 páginas do livro de largas margens brancas, o mineiro Barreto foca, prioritariamente, o futebol do Sudeste, onde a maioria dos jogadores nasceu ou se projetou para a fama.

Ao Nordeste, por exemplo, restam referências a Rivaldo e a duas histórias que tiveram como palco a Bahia. Sobre o jogador pernambucano, ressalto o trecho que o humaniza e não está relacionado à sua atividade nos campos de jogo, uma raridade nos perfis. “Com o dinheiro que ganhou no Brasil e na Europa, mandou asfaltar as ruas do quarteirão onde cresceu, em Paulista (município da Grande Recife), comprou a melhor casa da rua e encheu-a de empregados que são proibidos de acordar a mãe – ela sempre dormiu até tarde, mas precisava sair cedo da cama para cuidar da família”.

Sobre a Bahia, o manjado episódio da façanha de Nildo, o homem que evitou o milésimo gol de Pelé, e a profecia feita por um pai de santo, que marcou a vida de Zizinho, durante a passagem do Flamengo por Salvador.

Enfim, não é na discussão que gira em torno da inclusão de Neto, cuja carreira acabou antes dos 30 anos, com brilho apenas no Corinthians, ou de qualquer outro camisa 10, que o livro desperta algum interesse. Se há algum mérito, reside em apresentar de uma maneira objetiva um pouco da história do futebol para novas gerações de torcedores.

segunda-feira, 29 de março de 2010

IVC de fevereiro - as maiores quedas

Além das quedas do Meia Hora e de O Dia, citados em postagem anterior, outra grande queda entre os 30 maiores jornais do país foi a do Diário de S.Paulo, comprado por J. Hawilla das organizações Globo. Em fevereiro de 2009, o jornal estáva em 17º lugar, venda média diária de 60.629. Doze meses depois, ocupa a 25ª colocação, com média de venda de 42.782 jornais.

IVC fevereiro - maiores altas

As maiores altas, comparando-se fevereiro de 2009 com fevereiro de 2010, entre os 30 principais títulos foram:

10º - Aqui (MG, MA, PE, DF - consolidado) - 80,80% (128.700)
13º - Dez Minutos (AM) - 73,02% (79.485)
21º - O Tempo (MG) - 35,87% (34.121)
28º - Hoje em Dia (MG) - 27,96% (40.537)

Ressalto ainda o crescimento do
42º - Correio (BA) 71.29% (25.574)
46º -Aqui (PE) 304,51% (23.219)

IVC de fevereiro - a gangorra dos jornais

As principais mudanças entre os 20 maiores jornais brasileiros em relação ao mês anterior, segundo o IVC de fevereiro de 2010:

- Extra passou O Globo (ambos são do mesmo grupo). Extra foi para 3º (271.830 exemplares/dia, em média) e o Globo (251.216) caiu para 4º.

- Estado de São Paulo inverteu posição com Zero Hora. Estadão é o 5º (227.003) e ZH o 6º (185.307)

- Correio do Povo também subiu uma posição. É o 7º (154.070)

- Meia Hora e O Dia tiveram quedas de vendas. MH passou de 7º para 8º (144.057). E O Dia manteve-se em 18º, mas sua vendagem caiu de 57.148 para 55.736. Interessante ver que em um ano os dois jornais da Editora O Dia tiveram grandes tombos. O Meia Hora despencou de 5º para 8º, de 218.856 para 144.057. Queda de 74.799 exemplares/dia, em média, ou de 34,18%. O Dia teve desempenho pior, caiu de 11º (92.183) para 18º (55.738). Ou seja - 39,54%.

- Dez Minutos (AM) pulou de 15º para 13º (79.485). O crescimento em um ano foi de 73%. Antes era o 23º (45.939)

- Estado de Minas (75.713) passou de 16º para 14º

- Daqui (GO) caiu de 13º para 15º (74.561)

- Expresso da Informação (RJ- Infoglobo), caiu de 14º para 16º (72.891).

- Correio Braziliense era o 20º e passou para 19º (55.284), invertendo a posição com o Valor (53.933)

IVC de fevereiro - em um ano nove jornais a menos

Em fevereiro de 2009, 101 jornais estavam cadastrados no IVC. Doze meses depois, temos 93. O que aconteceu? Cinco jornais da rede Bom Dia (Sorocaba, São José do Rio Preto, Jundiaí, Bauru e Fernandópolis - Marília ainda não existia) deixaram de divulgar suas vendagens individuais. Outros quatro se desfiliaram ou não mandaram os dados a tempo de ser incluído no ranking do mês.

São eles Tribuna de Petrópolis (RJ - a última vez que saiu foi em agosto de 2009, quando vendia 1.724 jornais diários), Estadão (RO- saiu em fevereiro de 2009), Tribuna Independente (AL - a última vez que apareceu foi em dezembro de 2009) e Diário de Natal (RN , que até o mês passador era o 90º colocado).

De lá pra cá, comparando-se a relação de fevereiro de 2009 com o mesmo período de 2010, só um jornal se filiou. Foi o Aqui-MA. Atulamente, o jornal maranhanse que faz parte da rede de populares dos Diários Associados está em 32º do ranking, com venda diária média de 39.400 exemplares.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Notícia de jornal

Desmentindo a afirmação de Chico Buarque de que "a dor da gente não sai no jornal". Edição de hoje (10/3/2010).

segunda-feira, 8 de março de 2010

Populares e jornalões: vendas e estratégias

Em vez de apresentar os números do IVC de janeiro, mostrando os veículos de comunicação que subiram ou desceram no ranking, apresento comparação entre os 10 maiores jornais populares e os 10 jornalões que mais vendem no país. O baixo percentual de venda avulsa (em bancas, supermercados, farmácias) dos jornais que se apresentam como de repercussão nacional chama atenção, como veremos adiante.

Vamos começar pelos populares. A seguir os 10 mais vendidos e o lugar que ocupam no ranking do IVC: Super Notícia (2º), Extra (3º), Meia Hora (4º), Diário Gaúcho (9º), Aqui consolidado (a soma dos Aqui MG, PE, DF, MA - 10º), Lance! (11º - esportivo incluído como popular por ter preço baixo, linguagem acessível e seguir a política de promoções do segmento), Agora SP (12º), Daqui- GO (13º), Expresso da Informação (14º) e Dez Minutos (15º).

A soma da venda média diária desses jornais é 1.399.214 exemplares, sendo que 97,9% são feitas exclusivamente em pontos de venda (ver gráfico abaixo).

Somente o Lance! e o Agora SP têm assinaturas. As assinaturas do Lance! - 3.451 - representam 2,8% da venda total (121.314). O único que realmente investe nesse modelo é o Agora, cujos assinantes representam 28,8% do total de leitores, ou seja, quase um terço do total. O popular do Grupo Folha é o 18º em assinatura entre 77 jornais no ranking do IVC.

Outros sete títulos não têm assinaturas. Os vários Aqui, do Diários Associados, possuem, curiosamente, dois assinantes (0,0016%).

Vale destacar, que mesmo sem assinaturas, a venda dos populares é superior 1,10% a dos jornalões. Eles também fizeram o mercado crescer e de alguma forma estimulam o aumento do índice de leitura. Mesmo assim, ainda há preconceito contra os populares, principalmente nas universidades.

Clique no quadro para ver a tabulação dos populares.







Sobre os jornalões

Os 10 mais vendidos e o respectivo lugar no ranking do IVC, em janeiro de 2010, são Folha de S. Paulo (1º), O Globo (3º), O Estado de S.Paulo (5º), Zero Hora (6º), Correio do Povo - RS (8º), Estado de Minas (16º), Valor (19º), Correio Braziliense (20º), O Tempo - MG (21º) e Gazeta do Povo- PR (22º).

A venda avulsa da campeoníssima Folha é de 7,53% do total, a terceira menor proporção entre venda em bancas e assinaturas no universo dos 10 maiores qualities do país. Se só tivesse os 21.538 leitores que compram o jornal motivado diariamente por sua primeira página, a Folha estaria em 49º lugar entre os 94 jornais que aparecem no ranking de vendas totais do IVC.

Piores proporções têm ainda o Correio do Povo (3,7%) e o Valor Econômico (4,39%). A venda avulsa absoluta do Valor é a menor: 2.482 exemplares.

As carteiras de assinaturas dos jornalões variam de 78,92% (Correio Braziliense) a 95,61% (Valor). E a venda avulsa representa, no somatório dos principais veículos deste segmento 12,10% do total.

Nos populares, que têm estratégia diferenciada e que precisam conquistar os leitores todos os dias nas bancas, o índice passa para 97,92% do total.

A venda em assinatura, não custa lembrar, está baseada em descontos, promoções e uma complicada logística, o que encarece os custos de produção. No entanto, há o conforto de se manchetar com temas de menor apelo e muitas vezes a opção por títulos burocráticos.
Clique no quadro para ver a tabulação dos jornalões.




quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Homenagem ao trio elétrico

Esta página fechou a cobertura de A TARDE na terça-feira de Carnaval. Ela foi idealizada por mim e executada pelo repórter Juracy dos Anjos, a fotógrafa Manuela Cavadas, o pessoal da editoria de Arte (Filipe Cartaxo, Iansã Negrão) e designer Vado Alves.

A proposta foi ouvir 60 foliões de diferentes estados e países para que dessem seu depoimento sobre o Carnaval em que se comemorou os 60 anos do trio elétrico, invenção genial de Dodô e Osmar. Pegamos os depoimentos de todos e selecionamos os melhores.

Tive a ideia de fazer isso quando vi, no sábado, a passagem do trio elétrico com o DJ Bob Sinclair. O rosto de europeus e brasileiros que seguiam Sinclair formavam um mosaico interessante, que resolvi associar ao trio.

Após explicar o que eu queria, Iansã e Filipe fizeram pesquisas e encontraram no Flickr um cartaz publicitário com textura semelhante. O resto foi trabalho braçal de edição e de tratamento de 60 fotos.

Embaixo da fubica o nome, idade, profissão e local de origem de todos os foliões. Nos confetes, as frases em destaque. Gostei muito do resultado.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

IVC de dezembro

Os seis jornais mais vendidos do país, mantiveram suas posições em relação ao mês anterior, segundo dados do IVC de dezembro. Pela ordem: 1º Folha de S.Paulo, venda média diária 289.260, com queda de 2,89% em relação ao mês anterior; 2º Super Notícia – MG (282.503, queda de 0,94%), 3º O Globo (251.944, queda de 0,75%); 4º Extra (222.545, queda de 3,34%); 5º O Estado de S.Paulo (221.251, alta de 3,67%) e 6º Zero Hora (185.713, alta de 1,19%).

Com relação ao mesmo período do ano passado, O Globo caiu 14,10%. Os outros variaram entre queda de 3,40% (Folha) a um crescimento de 0,55% (Estadão).

Outros dados interessantes: os principais jornais populares do Rio tiveram queda em relação ao mês anterior, variando de 0,32% (Expresso da Informação) a 5,54% (Meia Hora). O Meia Hora (115.456 exemplares vendidos em média, por dia) teve queda no mesmo patamar (5,25%) que o outro jornal da empresa que o publica, O Dia (58.632). O ex-principal diário da editora, que já rivalizou em vendas com a Folha, hoje ocupa a modesta 18ª posição no ranking. Na comparação com dezembro de 2008, os dois tiveram reduções expressivas: - 35,35% e -39,42%. Será que foi isso que motivou a saída de Gigi Carvalho da presidência do grupo?

Não custa relembrar a história de O Dia. Da década de 40 a 1983, ele pertenceu ao ex-governador do Rio, Chagas Freitas, era um jornal do tipo “espreme e sai sangue” e vendia, sem muito marketing e esforço, 180 mil exemplares por dia quando foi vendido para Ary Carvalho, que o comprou com a ajuda do ministro Mário Andreazza e algumas construtoras. Ary determinou a reforma editorial do jornal, em 1987. Contratou Dácio Malta, do JB, para editor-chefe, aumentou salários e levou para O Dia profissionais do Jornal do Brasil, jornal de maior prestígio à época, O Globo, Última Hora, que agonizava, e outros veículos. As mudaças levaram o jornal a vender mais de 900 mil exemplares aos domingos e 450 mil nos dias de semana, no início dos anos 90.

Decisões equivocadas (a de partir para uma disputa com O Globo, o fechamento das edições regionais e mudanças na linha editorial, dentre elas), da então editora-chefe Ruth Aquino no comando da redação, fizeram as vendas do jornal despencar. Outro fator contribuiu para isso, o surgimento do Extra, do mesmo grupo de O Globo.

Ainda sobre populares cariocas, levando em consideração minha tese que os jornais esportivos se encaixam nessa categoria, vale registrar que o Vencer, vencer, vencer, voltado para a torcida do Flamengo, passou da 31ª posição para a 23ª. São 46.838 exemplares/dia, o que representa crescimento de 20,88% em relação ao mês anterior e de 175% (o segundo maior aumento entre os 95 jornais que constam na lista do IVC, em relação a dezembro de 2008) – o maior crescimento foi registrado pelo também popular Aqui (PE), cujas vendas subiram 295,51%, comparando-se com o ano anterior. É uma média de 20.780 exemplares/dia. O veículo é o 53º do ranking.

Grandecrescimento no mesmo espaço de tempo também foi registrado pelo popularzão do Amazonas, o Dez Minutos (118,93%, 71.052 exemplares e 16º do ranking).

Para finalizar, algumas disputas regionais:

Rio Grande do Sul – Zero Hora (6º, 185.713) x Correio do Povo (7º - 153.886 exemplares) x Diário Gaúcho (9º, 139.628, mesmo grupo da ZH).

Minas – Super Notícia (2º, 282.503) x Aqui (MG- Consolidado – 123.962 – 11º) x Estado de Minas ( 14º, 75.380) x O Tempo (21º, 47.588). x Hoje em Dia (29º, 41.047)

Pernambuco – Jornal do Commercio (30º.40.925) x Diário de Pernambuco (48º, 22.227) x Aqui (PE) (53º, 20.780)

Ceará – Diário do Nordeste (28º, 41.213) x O Povo (42º25.175)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

AFP pede desculpas. EFE fica em silêncio

O diretor regional da Agência France-Presse (AFP) para a América Latina enviou, às 23h30 (horário de Salvador) para A TARDE nota desculpando-se pela distribuição equivocada da foto do terremoto da China como se fosse a da tragédia no Haiti. A agência EFE, que também distribuiu a foto, permanece em silêncio. Eis a nota na íntegra:

Montevideo, 15/1/2010

"Bom dia. Apresentamos nossas desculpas pelo envio, em nosso serviço, de uma foto errônea publicada em sua edição de 14 de janeiro.

Algumas horas após o anúncio do terremoto no Haiti, nosso escritório de Washington procurou recuperar imagens por diferentes fontes, enquanto nossas equipes de fotógrafos e jornalistas começavam a se mobilizar em condições muito difíceis, sem possibilidade de comunicação. Várias fotos foram, então, obtidas no site de relacionamentos Twitter e enviadas com uma legenda precisando a fonte e, ao mesmo tempo, a nossa incerteza de poder certificar sua origem. A maior parte das imanges foram, efetivamente, tiradas após a catástrofe, mas duas delas se revelaram falsas. Uma dessas fotos mostrando os danos causados pelo sismo foi, na realidade, tirada após um tremor de terra no Chile, tendo sido retomada pela AFP e outras agências.

Quando o serviço foto da AFP se deu conta da manipulação, duas horas após o envio das imagens, foi transmitida uma nota de alerta a todos os nossos clientes pedindo que não as utilizassem e as invalidassem. Elas foram também retiradas de nosso site ImageForum.

Este erro, eu sei, causou sérios transtornos. Estamos desolados. Acreditem, estaremos vigilantes para não repeti-lo. Em seguida ao incidente, decidimos reforçar nossos sistemas de verificação para que este tipo de episódio não volte a acontecer, além de estudar a forma de melhorar a eficácia de nossos alertas junto a nossos clientes.

Cordialmente,

Francis Kohn, diretor regional para América Latina

Foto fraudada - parte II

Capa e página interna de A TARDE que tratam da questão da foto fraudada










Fraude coletiva

Inúmeros jornais e sites do Brasil e do mundo publicaram entre terça e quarta-feira suposta foto do terremoto do Haiti. Ela foi distribuída por pelo menos duas agências - EFE e AFP (France-Presse). Na verdade, a foto que ganhou a capa de várias publicações, incluindo A TARDE, e destaque em sites como o do Daily News e Washington Post era falsa. Tratava-se de uma imagem do sismo ocorrido na China, em 2008.

A fraude foi descoberta pelo diretor de redação do jornal Zero Hora (RS), Marcelo Rech. E doeu como um soco no estômago dos editores de A TARDE e, com certeza, nos vários colegas de ofício que confiaram na credibilidade das agências. Para resumir, A TARDE decidiu contar a história da fraude, questionar o mau uso das novas tecnologias de comunicação, reconhecer o erro e pedir desculpas aos leitores em uma página inteira, com chamada na capa. Guardarei esse material com muito cuidado. É excelente como ensinamento e utilíssimo para reflexão.


A decisão de A TARDE ganhou repercussão. A Zero Hora pediu para que enviássemos exemplar do jornal para que eles examinassem em um seminário interno a nossa reação. Até onde sei, eles divulgaram um artigo de Marcelo Rech na internet, que foi descoberto pelo fotógrafo Fernando Vivas. Vivas comentou com o repórter Valmar Hupsel , que alertou a secretaria de redação. Ciente do erro, tratamos de repará-lo com dignidade. As agências de notícias, porém, se recusam a admitir o erro de transmitir o material açodadamente. Vale lembrar que até o momento em que escrevo esse texto, vários jornais que publicaram a foto ainda não sabem da fraude.

Jornais publicam foto falsa do Haiti enviada por agências

Valmar Hupsel Filho

Foto publicada ontem em A TARDE e em incontáveis jornais e sites do Brasil e do mundo para ilustrar a matéria sobre o terremoto ocorrido na última terça-feira no Haiti é falsa. A imagem, na verdade, registra um sismo ocorrido em maio de 2008, na China. O material fotográfico foi distribuído pelas agências de notícias Agence France-Presse (AFP) e EFE e reproduzidas em meios de comunicação em diversos países.

O autor da descoberta da fraude foi o jornalista Marcelo Rech, diretor da RBS – rede de comunicação gaúcha responsável pela edição do jornal Zero Hora, que publicou a fotografia na página 3 da edição de ontem. “Desconfiei da imagem e lembrei que tinha visto a mesma foto no Dailly Telegraph, em janeiro, numa matéria sobre o terremoto na China. Coloquei ‘Earthquake (terremoto) China’ no google imagens e estava lá”, disse.

Rech conta que até ontem à noite diversos veículos, a exemplo dos respeitáveis Washington Post e Daily News, não haviam percebido o equívoco. Além de A TARDE, inúmeros jornais estamparam a foto na capa da edição de ontem, como o Diário do Comercio (SP), Hoje em Dia (MG), Diário de Natal (PB), Ottawa Citizen (Canadá), El Mercurio (principal jornal do Chile). Outros publicaram a mesma foto com destaque em páginas internas, como Correio (BA) e Extra (RJ).

Equívoco - A responsável pelo setor comercial da agência de notícias AFP, Magali Gonzalez, reconheceu que houve erro no envio da fotografia. Depois de entrar em contato com o escritório da AFP para a America Latina, em Montevidéu (Argentina), Gonzalez disse que a imagem foi disparada para diversos meios de comunicação com a legenda informando que ela foi capturada do site de mensagens instantâneas Twitter e foi cadastrada como sendo “supostamente” do terremoto ocorrido em Porto Príncipe, capital do Haiti. A TARDE fez download da imagem às 15h49 de quarta-feira.

A foto tinha uma legenda, em inglês, que, traduzida para o português, informava: “ imagem obtida através do Twitter supostamente mostra construções destruídas em 12 de janeiro de 2010 em Port-au-Prince, depois que um enorme terremoto medindo 7,0 abalou a empobrecida nação caribenha de Haiti, derrubou prédios, causando danos generalizados e pânico em funcionários e testemunhas da AFP. “O problema é que ninguém lê legenda de foto. Ainda mais em inglês”, justifica Gonzalez.

Já o delegado da agência de notícias EFE no Brasil, Jaime Ortega, informou que o primeiro fotógrafo chegou ao Haiti às 15 horas (horário de Brasília) de quarta-feira. Segundo ele, no período entre as 19h50 de terça-feira, quando aconteceu o terremoto, e as 15 horas de quarta, a agência retransmitiu fotos do site local www.radioteleginenhaiti.com. Na página inicial deste site consta uma mensagem, em inglês, em que o seus responsáveis não se responsabilizam pelas imagens porque estava recebendo fotos do mundo inteiro. Apesar do alerta, a agência distribuiu a fotografia do terremoto na China como se fosse o do Haiti para meios de comunicação de diversos continentes.

Ortega informou que a EFE recebeu a imagem falsa às 0h55 de quarta, e que, às 8h44 da manhã do mesmo dia, recebeu aviso de que a imagem em questão estava anulada. Não houve anulação do despacho. A TARDE, por exemplo, baixou imagem da EFE, às 16h09, sem que a agência tenha feito qualquer aviso de anulação. Na legenda da fotografia havia indicação de que o site www..radioteleginenhaiti.com seria a fonte. “Não sabemos ainda como a foto foi parar lá, mas pode ter sido um hacker que colocou a imagem na página”, disse Jaime Ortega.

Imediato - O PhD em Sociologia e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, Marcos Palácios, analisa que este caso demonstra “a dupla face” da tecnologia. “Hoje, há uma quantidade enorme de informação circulando, mas muitas vezes não se sabe a procedência delas, o que acaba criando este tipo de ruído”, disse. Ele ressalta que casos como este reforçam a necessidade da presença do jornalista no trato com a informação, para checar a veracidade.

“Este é um reflexo da cultura do tempo imediato, onde a matéria tem que estar publicada quase no instante em que o fato está acontecendo”, avalia o doutor em comunicação e professor de fotografia da faculdade de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), José Afonso Júnior. “A velocidade é o valor-notícia, muitas vezes mais valorizada que a informação bem apurada”.

De acordo com o estudioso, o avanço da tecnologia em telefones celulares permitiu que qualquer pessoa tenha uma câmera fotográfica no bolso. Mas, contraditoriamente, apura-se pouco a procedência das informações, mesmo com toda a facilidade oferecida pela tecnologia”, comenta Afonso Júnior.

“Manipulação de imagens existe desde que existe a fotografia”, afirmou o pesquisador pernambucano. Ele lembra de casos recentes, como as primeiras informações sobre o acidente com o Boeing da TAM, no final de 2007. Na ocasião, o site UOL chegou a publicar uma foto em que era mostrada uma pessoa pulando do avião. Mais tarde verificou-se que a imagem era manipulada.

O rastro escuro da mentira virtual

Florisvaldo Mattos - Editor-chefe de A TARDE


Na violenta trepidação do assombro com que a tragédia do Haiti se apossou das pessoas em todo o mundo, sem muito tempo e calma para analisar textos e imagens, A TARDE viu-se compelida a cometer o mesmo equívoco em que incidiram importantes meios de comunicação brasileiros e internacionais, à base do que fora divulgado por prestigiosas agências de notícia, tais como Associated Press, France Presse e a espanhola EFE, que retransmitiram para o mundo foto de grande carga dramática divulgada pelo Twitter. É a que A TARDE estampou em sua primeira página ontem, e era uma mentira, uma fraude, distribuída no torpor que causaram as primeiras notícias e imagens do terremoto em Porto Príncipe, capital do Haiti.

No mesmo engano, propiciado pela facilidade com que se manuseiam recursos de comunicação por redes sociais na internet, em grande parte delas sem a responsabilidade que não deve prescindir a divulgação de informações a públicos cada vez mais delas necessitados, se viram enredados jornais como o brasileiro Zero Hora e o americano Washington Post. Na verdade, a foto transmitida falsamente pelo Twitter não era do Haiti, mas de aterradores danos causados por terremoto na China em 2008, que arrasou a província de Sichuan.

A realidade com que se defronta o mundo da comunicação nos dias de hoje com uma formidável cartografia de riscos permitidos pelo manejo irresponsável da informação por ferramentas virtuais, como blogs, microblogs e outras formas de divulgação veloz e instantânea, sustentada por tecnologias de ponta cada vez mais avançadas, porém descomprometidas com procedimentos que norteiam o jornalismo profissional, há mais de um século, uma conquista da revolução do humanismo, expõe ameaças assustadoras apontadas contra os pilares éticos que inspiram e sustentam a histórica credibilidade de sua prestação de serviço a bem da evolução do homem e da sociedade.

Diante da fragilidade a que esse laboratório de inseguranças expõe a humanidade, espalhando-se irrefreavelmente por meio da internet, sem que no momento se divisem fórmulas de impor-lhe freios e disciplinamento, cabe ao jornalismo impresso alçar-se e, com a autoridade conquistada ao longo dos anos, advertir dos perigos que a desinformação e a ação degenerescente dos que usam tais redes sociais podem causar universalmente num crescendo às pessoas, esforçando-se para que a credibilidade da informação se instale num campo que ainda a desconhece.

Enquanto o mundo, comovido e impotente, assistia o desastre que a natureza revolta infligia ao povo do Haiti, com as mais desencontradas informações e o desespero circulando nas primeiras horas de sua eclosão, elementos irresponsáveis se valiam de um instrumento que entusiasma e encanta o planeta, para criminosamente divulgar uma imagem que induzia os meios de comunicação ao erro, confiados no prestígio e na força das agências que a propagavam.

Em face disso, apoiada na credibilidade que informa, há quase um século, a sua relação com seus leitores, A TARDE sente-se no dever de pedir-lhes desculpas, permanecendo no seu cotidiano de produzir e publicar informações com responsabilidade e seriedade.